Dalgo - poemas que ficam
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   Dalgo - Poemas que ficam, blog português de poesia seleccionada de autores de língua portuguesa, espanhola e inglesa.

abril 17, 2006


FMI - José Mário Branco


FMI- José Mario Branco

Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!

FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

José Mário Branco
FMI foi editado originalmente em 1982 no maxi Som 5051106, e reeditado em 1996 em 'Ser Solidário' ( EMI-Valentim de Carvalho).

Fonte: fmi.com.sapo.pt



Publicado por Mianiam em 07:46 PM | Comentar (0)

Fonte - I


Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

Herberto Helder



Publicado por Mianiam em 07:24 PM | Comentar (0)

abril 10, 2006


Utopia


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

José Afonso



Publicado por Mianiam em 07:27 PM | Comentar (0)

Trás Outro Amigo Também


Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

José Afonso



Publicado por Mianiam em 07:26 PM | Comentar (0)

abril 03, 2006


Devolva-Me


Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim será melhor meu bem

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver devolva-me
Deixe-me sozinho
Porque assim eu viverei em paz
Quero que sejas bem feliz
Junto do seu novo rapaz

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver devolva-me

Rasgue as minhas cartas
E não me procure mais
Assim vai ser melhor meu bem

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver (tempo)
devolva-me, devolva-me,
devolva-me

Adriana Calcanhotto

Composição: Renato Barros / Lilian Knapp



Publicado por Mianiam em 12:11 PM | Comentar (0)

março 08, 2006


O meu vizinho Sebastião


Ouvi falar pela primeira vez no Sebastião Alba nas aulas de Literatura Africana de Expressão Portuguesa, quando, na universidade, estudava para doutor de letras & tretas. O professor, muito academicamente, referiu-se ao branco com alma de negro e recomendou-nos a leitura de O Ritmo do Presságio e de A Noite Dividida. Não me preocupei a procurar os livros na biblioteca da instituição e muito menos numa livraria - na altura o dinheiro mal dava para a cerveja diária que um estudante tinha de consumir para não ser mal visto pelos colegas. Mas realmente os livros não me interessavam. Primeiro porque eu andava a ler o Castro Soromenho e o Luandino Vieira e depois porque eram de poesia, coisa que pouco me atraía.

Ficou-me pois o nome na cabeça juntamente com muitos outros que nunca li nem estava nos meus horizontes ler. Mas sempre era cultural saber-lhes os nomes e um ou dois títulos das obras que escreveram e que têm feito a volúpia de alguns, para, numa tertúlia, não ficar mal visto diante daqueles que leram e consideram os não ledores pouco acima da gentalha que adormece à frente da televisão e vai à bola.

Algum tempo depois, conheci o José Vieira e o Vergílio Alberto Vieira, e a minha aversão à poesia foi mudando a ponto de até eu próprio começar a alinhar uns versos de rima toante. Nas conversas que íamos tendo, vinha de vez em quando à baila o Sebastião Alba, que eu julgava a viver nalguma senzala africana. Afinal estava bem enganado. O Sebastião Alba era quase meu vizinho. Aliás, em certas tardes de calor, poderia dizer que era mesmo meu vizinho. À frente do prédio dos meus pais há um relvado com a sombra apetitosa de um choupo e não imaginava eu que o desgraçado que ali se deitava a dormir a sesta com uma garrafa de vinho tinto ao lado era o autor de A Noite Dividida.

Acabei por ler o livro e por me deixar encantar. Foi por essa altura que começou a aparecer no meu diário o nome do meu vizinho. A primeira referência é de 26 de Março de 1993. Escrevi eu: «Fui com o Zé Vieira a uma cervejaria onde nos esperavam o Vergílio Alberto Vieira e o Miguel Queirós. Aí estivemos os quatro a cervejar e a trincar moelas numa conversa amena e sacra. Porque um gesto sagrado é a poesia e falar-se dela. Citaram-se poetas, alguns por mim conhecidos apenas de nome, contaram-se proezas do Sebastião Alba, de Eugénio de Andrade, do Ramos Rosa, tão doente e tão cósmico, da Natália e da sua poesia mamária. E ainda de poesia alemã, com mais de seiscentos novos livros editados por ano.

Daí a dois meses, no dia 21 de Maio, escrevo o seguinte: «Eu e o Zé Vieira fomos a casa do Vergílio. Encontrámo-lo na sala-de-estar com o Sebastião Alba a ouvir Rossini e Bach em CD. Tivemos um serão agradável, com música clássica e as recordações do Sebastião Alba. Imaginei-o de aspecto miserável por causa do álcool e da vida de vagabundo. É, pelo contrário, um homem bem parecido, de longa pêra cinzenta e olhar azul. Martirizou o Vergílio a noite toda para que este lhe oferecesse o seu último livro. O Vergílio não quis dá-lho, pois sabia que no dia seguinte iria trocá-lo num alfarrabista por dinheiro para vinho. Falou-se de África, leu-se poesia. Recordaram-se alguns episódios de que o Sebastião Alba foi protagonista. Conto alguns:

«Certo dia, o Sebastião subiu à Faculdade de Filosofia a pedir emprego aos jesuítas. Atenderam-no mal e então o poeta foi ao rubro; sacou duma fotocópia do bolso e disse: «Então metem-me na Enciclopédia e agora não me querem dar emprego?»

«Uma doutora de Lisboa, numa das suas aulas de Literaturas Africanas, explicou: "Sebastião Alba encarna a luta contra o colonialismo e a exploração dos brancos sobre o povo negro. O próprio nome o revela: Alba lido ao contrário é Bala." O que a senhora com certeza não sabia era que ele é branco.

«Nas suas visitas à casa de Vergílio que, pelo que descobri, são bastante frequentes, o Sebastião costuma abandalhar um pouco a casa, largando lixo por qualquer canto. Uma altura, divertidamente ofendido, atirou ao seu anfitrião: «Está aqui uma teia de aranha. Não me digas que também fui eu que a teci!»

Alguns dias depois, a 5 de Junho, explico que passei na casa do Vergílio Alberto Vieira e ele contou-me que a Secretaria de Estado da Cultura disponibilizou uma verba para a reforma de Sebastião Alba. O meu comentário soa a inconfidência: «O homem agora anda em festa. Mexeram os pauzinhos o António Ramos Rosa e o Herberto Hélder. Era necessário arrancá-lo da miséria, porque os Camões não têm razão de existir hoje.»

No dia 28 de Janeiro de 1994 escrevi: «Encosto-me à cadeira e penso na minha visita ao Zé Vieira ontem à noite. Procurei-o na oficina, mas a porta estava fechada. Subi umas escadinhas escuras e fui encontrá-lo no gabinete a ler o Carlos de Oliveira.

«Falou-me do Sebastião Alba e da sua crítica a uma pose do Vergílio Ferreira na Fotobiografia: a mão esquerda a segurar a cabeça com um dedo a apontar o cérebro. "Uma imitação de Rimbaud e de Puccini, que também armaram a mesma pose perante a câmara o primeiro, perante o pintor o segundo". Eu acrescentei que essa pose vem já dos Gregos.»

Em 25 de Agosto do mesmo ano falo de mais uma visita à casa do Zé Vieira: «Falámos do Sebastião Alba e leu-me alguns poemas que ele lhe confiara. Parece que o Egito Gonçalves recusara publicar-lhos, não por questões de qualidade, pois são bons, mas pela aparência lastimável do poeta. Aparecera na editora bêbado e muito mal apresentado. O Egito não teria gostado.»

Em 27 de Janeiro de 1996 escrevi: «Passei a manhã na casa do Zé Vieira. Falou-me do diário que lhe enviei pelo correio. Parece que o Alba surripiou o exemplar do diário e escondeu-o na braguilha. Depois lá deu pelo assalto. Terei de lhe enviar um exemplar. Neste Inverno frio e chuvoso, o Alba continua a dormir no alpendre da capela de Santo Adrião.

«Contou-me o Vieira que o Sebastião Alba foi às Jornadas de Literatura Africana que se estão a realizar na Universidade Católica. O José Craveirinha, vendo-o entre a assistência, pediu-lhe para se sentar na mesa, entre o Luandino Vieira, o Mia Couto e outros, ou não fosse ele um dos mais significativos poetas da negritude. O Sebastião Alba cruzou a perna, coçou a barbicha com uma mão e recusou com a outra num gesto de enfado: "Sujo a cadeira".»

No dia 4 de Maio volto a estar com o Vieira: «Falámos do Alba: uma rapariga nossa conhecida pediu-lhe que casasse com ela. O Alba não aceitou. Deu-lhe uma recusa de artista. Mas eu cá por mim talvez não me fizesse de tão caro: é que a rapariga é um bom pedaço e não tem mais de vinte e poucos anos. Mas eu não tenho costela de artista. Sou um prosaico, um oportunista.»

A última referência ao Sebastião Alba é do dia 8 de Fevereiro de 1997: «passei o resto da tarde na casa do José Vieira. Fui encontrá-lo a ler. Largou a leitura e levou-me para a oficina de talha onde ele, num tosco pedaço de madeira, andava a talhar estranhas figuras de homens entre um bosque. A conversa espraiou-se por múltiplos temas: pintura, escultura, poesia, mulheres. Falámos do Alba, agora com um novo livro publicado pela Assírio & Alvim. O Zé contou-me que o dinheiro que recebeu da editora deu-o às filhas. E ele continua a dormir ao relento.»

Aquando da sua morte, já eu não rabiscava o diário, por andar com outras escritas mais suculentas e menos fragmentárias. Não significa porém, que a dita me tenha passado despercebida. Lembro-me de ter sentido uma espécie de perda, quando o Vieira me telefonou a dar a notícia. Alguns dias depois fui a casa dos meus pais. À sombra do choupo estava uma garrafa vazia e sem rolha.

José Leon Machado, Agosto de 2002

Fonte: José Leon Machado: Pontapés do Canto



Publicado por Mianiam em 07:03 PM | Comentar (0)

fevereiro 06, 2006


Sebastião Alba, uma biografia


Sebastião Alba (Dinis Albano Carneiro Gonçalves): 11-Março-1940 / 14-Outubro-2000: Nasceu na freguesia da Cividade, Braga. Filho de Albano Moaz dos Santos Gonçalves, professor primário, e Adelaide Sebastiana Peixoto de Oliveira Carneiro, doméstica. Partiu em 1949, com nove anos, para a colónia de Moçambique, passando a viver em Tete com os seus pais e irmãos. No início da década de 50, após passar no exame de admissão ao Liceu Salazar de Lourenço Marques, frequentou o Colégio Camões e também o Instituto Liceal na Beira. Em finais dos anos 50, a família passou a viver em Quelimane. Após ter sido incorporado no Contingente Geral em Boane aos 21 anos, desertou no segundo dia. Acabou detido e acusado de extravio de bens militares: cinto e bivaque. Ficou detido por dois anos e meio, sem julgamento e sob tortura, no isolamento. No entanto, ainda se ausentou quatro vezes da Casa de Reclusão. Cumpriu os quinze meses de pena a que foi condenado pelo Tribunal Militar na 23ª Enfermaria do Hospital Miguel Bombarda. Acompanhou sempre o conflito armado entre o Exército Português e a FRELIMO. Tendo manifestado o seu apoio à FRELIMO após a independência, e após frequentar um curso de formação em Inhanbane, foi convidado para assumir o cargo de administrador da província da Zambézia. No entanto, desanimado, acabou por abandonar o cargo passados alguns meses sem sequer pedir demissão.

Acabou por se fixar em Maputo com a família, entrando em contacto com intelectuais e figuras políticas, tais como Marcelino dos Santos, Rui Nogar, Sérgio Vieira, Honwana, etc. Em Outubro de 1974, Sebastião Alba vê publicado O Ritmo do Presságio, acompanhado de uma nota de apresentação por José Craveirinha, na colecção O Som e o Sentido da Livraria Académica de Lourenço Marques. Em 1981 e 1982 são publicados, respectivamente, O Ritmo do Presságio e A Noite Dividida pelas Edições 70.

A desilusão com a situação política em Moçambique e a preocupação com as filhas fez com que, relutantemente, voltasse a Portugal em 1983. Após um período atribulado por várias desilusões, (divórcio dos pais, morte da mãe, morte do pai, divórcio da sua esposa) acaba por voltar a Braga, assando a habitar quartos de aluguer. O problema com o álcool e tabaco agravam-se. Toma vida de andarilho, acabando por viver na rua, por escolha própria.

Em 1996, é publicada pela Editora Assírio e Alvim, através da colaboração do poeta Herberto Hélder, A Noite Dividida, que tenta recuperar o conjunto da sua obra poética, embora incompleta.

Na manhã 14 de Outubro de 2000, foi atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. A 7 de Outubro, num bilhete quase premonitório ao amigo Vergílio Alberto Vieira escrevia: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.»

A título póstumo, foi publicada em 2000 a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência, cujas provas ainda foram revista por Sebastião Alba.

Obras de Sebastião Alba:

1 - Poesias, Quelimane, Edição do Autor, 1965.

2 - O Ritmo do Presságio, Maputo, Livraria Académica, 1974.

3 - O Ritmo do Presságio, Lisboa, Edições 70, 1981.

4 - A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70, 1982.

5 - A Noite Dividida (O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996.

6 - Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (Antologia: O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano + inédito), Porto, Campo das Letras, 2000.

Fonte : "Projecto Vercial".



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fevereiro 05, 2006


A literacia de um sem-abrigo


Numa era em que se apregoa ser necessário atrair os "cérebros" portugueses que se encontram no estrangeiro, com o isco de se lhes conceder melhores condições financeiras, o que se faz entretanto aos "cérebros" que por cá se têm ou tinham? Muito pouco ou nada. Uma vez mais são apenas discursos e mais discursos de propaganda política.
Na verdade, existiu um sem-abrigo - Sebastião Alba - pouco interessando se por opção ou não, que detinha um conhecimento literário, um conhecimento musical, um conhecimento da língua portuguesa que muitos letrados que andam por aí não terão. E quem se preocupou com ele? Mas ele também não queria esse tipo de preocupações, bastava-lhe o seu conhecimento profundo de escritores como Galileu, Tolstoi, Camus, Nietzsche, F. Pessoa, O’Neil, Hemingway, Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes ou Antero de Quental de entre tantos, os quais vai citando nos seus escritos de rua enquanto sem-abrigo, escritos agora publicados pelas edições quasi num livro póstumo. Estes seus companheiros, o conhecimento que tem deles, diz-nos não só da sensibilidade de Sebastião Alba mas, também, da sua dimensão cultural para além das ideias sociais e políticas que detinha. Sebastião Alba não temia o rumo que escolheu, preferia-o ao de tantos que correm para sítio nenhum pensando que são grandes por deterem um emprego que os aliena e impede de verem e viverem a natureza, o tempo, o espaço, a liberdade que ele tinha.

SÚBDITOS
"A poesia não é só o domínio da língua, até porque ela é indomável. Mas a ternura pelos fracos: as crianças, as mulheres, os velhos já senis. E os pobres animais bravios. Às vezes acordo, às 4 da manhã, a pensar em pardais nos ramos, com o bico sob a asa, fustigados pela chuva, à espera de que o sol raie. Quando o vento sopra em rajadas, como baterá o coraçãozinho deles? Já os tenho visto caídos, mortos. (...)
Súbdito só de quem não reina, aqui louvo os animais. Há, entre mim e eles, uma funda relação de videntes (...).
Albas, pag.39
A última crónica de O’Neil no JL: "(...) o que é na realidade o medo (...) É o imaginado antes do acontecido (...) É essa a vitória do medo: criar paraplégicos trementes (...) Nos transportes públicos, nas repartições, que vemos nós todos os dias? Paraplégicos trementes a entre abençoarem-se. (...) Todos temos medo? Claro. Até o infligimos. Agora há uns que sabem que o medo desdobra um vento bastante mais levantado que ele."
Albas, pag.209

Sebastião Alba terá vivido intensamente, preferindo por companhia um rádio, jovens de rua e a sua sombra. Como da literatura, também os seus conhecimentos musicais vêm da infância. Neste campo, a sua literacia é igualmente profunda e de uma dimensão e sensibilidade pouco usuais, solicitando-nos que não deixemos de ouvir, por exemplo, as Vésperas Sicilianas de Verdi, ou a 7ª Sinfonia de Beethoven, ou os Caprichos de Paganini, ou a Sonata ao Luar de Beethoven, ou, ainda, o Requiem de Mozart de entre tantas alusões musicais que podem retirar-se da leitura deste livro.
REQUIEM KV 626
"Só anjos (estou a pensar em Mozart) suportam a mediocridade sem se matarem. Eu sou uma forma híbrida; tenho um pacto com a terra e já não posso mais.
Aquela flauta no "Requiem" de Mozart não nos dá uma ideia de deus, mas da nossa escalada (infinita) para, enfim, deparar com a sua ausência."
Albas, pag.159

Enfim, são tantas as sugestões que, ler Albas, foi, uma vez mais, a descoberta de um ser humano como há poucos, sensível, natural, livre e, sobretudo, livre-pensador e livre-actor.
Pai:
"É um país de comerciantes e clientes. Os camponeses é que se fodem; os operários também, mas é bem feito: têm sindicatos que parecem exisitir só nos meios de comunicação social. E para si próprios. Todos chegaram tarde à política. A maioria vive dela, e os outros são ainda aristotélicos. Os comerciantes são de uma cupidez frenética. Sempre que posso, roubo-os. As esquadras de polícia já não me dizem nada: venho e vou, entro e saio. Mas roubo-os! Os escritores viajam para congressos; hospedam-se (transgridem á noite), recebem prémios, e a Literatura foi dar uma volta."
Albas, pag.95

Sebastião Alba não foi um actor passivo mas, antes, activo. Escreveu/disse sempre o que pensava, de si, dos outros, de nós. Soube onde queria estar e com quem queria estar.

CLUBE...
"Eu fico do lado de fora da porta, enquanto outros entram passando por mim, a ver-me ali. Sorriem; vocês acolhem-nos, a porta fecha-se mas eu sei ler desde os 19 anos. Sei o que eles valem, basta-me, hoje, passar uma vista de olhos pelos poemas que escreveram, no auge, entre os 20 e 30 anos. Não conseguem ir além disso, apesar da escola do auto-elogio, do elogio mútuo, e das publicações que não sei por que vias conseguem.
Do lado de fora da porta é que eu estou bem."
Albas, pag.94
Tinha amigos que preservou (Herberto Helder, Tengarrinha, entre outros.), alguns dos quais o ajudaram muito, apoiando-o sempre. Morreu assassinado/atropelado por um zé ninguém no ano 2000, contudo, a sua voz continua a ouvir-se neste seu livro e a sua actualidade é uma realidade.
Despojarmo-nos de tudo foi a sua mensagem pessoal. A sua mensagem imortal é a da liberdade, a da naturalidade, a da franqueza e a do amor.

"(...) Porque não sei o que pensar de mim, se vocês me desprezarem, sentir-me-ei desprezível; se me estimarem, estimável. Sou quem os que amo (ou detesto) pensam de mim. Pouco mais."
Albas, pag.40

Albas, Sebastião (2003). Alba, Edições quasi.

Guadalupe Subtil, em utopia.



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janeiro 26, 2006


A pomba para o cheina


Pontos de vista
entrecruzam as balas
e nós ensaiamos a pomba
desenhando-a encurvando-lhe
o dorso antes do voo
largando-a no prisma puro
dos olhares da multidão
Logo uma estrela fugaz
se lhe cola ao bico
Rodopiará no céu entre colunas
colossais de cogumelos
e sóis que a inflectem
mas bem aninhada no oco
habitáculo de penas
com a chave em nossa mão.


Sebastião Alba, "A noite dividida", Edições 70, Lisboa 1981



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Na sua primordial inocência


Na sua primordial inocência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável

e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou

apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie

já não a buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou

que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária

e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.

Sebastião Alba, "A noite dividida", Edições 70, Lisboa 1981



Publicado por Mianiam em 02:13 PM | Comentar (1)

Trecho da Praia


Como por um ralo atrás da pupila,
vêem-se agir:
nada divide o caranguejo, dividindo
os lodos em seu sulco,
e também suas pinças se amotinam
à passagem, com sombra,
duma ave marinha...

E antes da chegada ascendente do mar,
ou que alguém module a voz
pela que da nuvem soou
no paraíso, amam-se na areia.
Enquanto do largo
o halo dum navio nocturno
se expande e irisa em seu redor.

Sebastião Alba, "A noite dividida", Edições 70, Lisboa 1981



Publicado por Mianiam em 12:56 PM | Comentar (0)

o limite diáfano


Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 12:33 PM | Comentar (0)

não sou anterior à escolha


Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde

Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável

atento à efusão
da névoa na sala.

Sebastião Alba



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janeiro 18, 2006


os poetas


Com as polidas cintilações
das ondas eles enredam o mar
e aspam de brancura o voo das gaivotas

Sua íntima atitude
é a das estátuas por fora
Como elas amam sem noções que lhe doam

O céu foi o seu fundo das pupilas
orto da Estrela da Manhã
Mas volvidos são das paisagens rumorosas
onde nem o corpo do vento se suprime.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 04:48 PM | Comentar (0)

um anjo erra (o amor confuso)


Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho

e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 04:00 PM | Comentar (0)

certo de que voltas, canção (o amor confuso)


Certo de que voltas, canção,
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.

Sei, por sinais e anjos e desviados,
que rebentas dos sonhos desolados
em flores no chão.

Apenas flores, nem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vinho e pão.

Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 03:57 PM | Comentar (0)

a um filho morto


Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 03:52 PM | Comentar (0)

O ritmo do presságio


A tinta das canetas
reflui de antipatia
e impregnadas, assíduas
cambam as borrachas
Não há fita de máquina
que o uso não esmague
o vaivém não ameace
de dessorar os textos
Mas a grafia nada diz
de pausas na cabeça
Vozes inarticuladas
adensam, durante elas
uma tempestade recôndita
E nubladas carregam-se
as suspensões
encadeando em nós
o ritmo do presságio.

Sebastião Alba



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janeiro 17, 2006


há poetas com musa. Muitos.


Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.

Sebastião Alba



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Fim de poema


Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba



Publicado por Mianiam em 06:05 PM | Comentar (0)

Metade


Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.
Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é platéia
a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

Oswaldo Montenegro



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janeiro 12, 2006


Fuga para a Infância


Nas tardes de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
os meninos brincavam
iam passear ao mar
até o Morro iam
ver a gente.

O menino ficou preso
quando cresceu.

E nas tardes de domingo
vozes vinham chamá-lo
vinham ecos de vozes
que lindas vozes o menino ouvia!

Mas o menino estava preso
e não saía...

Numa tarde de domingo
os outros meninos vieram chamar
o menino preso...
E foi nessa tarde de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
que o menino fugiu para não voltar.

Mário António



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fevereiro 02, 2005


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Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...

Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...

Alda Lara



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fevereiro 01, 2005


Searching for Allen Ginsberg


I search for you in the stalls of university bathrooms.
You appear in dreams, buck naked between my ominous thighs.
Your beatnik lips around cock.
I want your moonlit ass beneath my covers.
Sit on my face oh beautiful Jew of Naomi's womb,
of San Francisco.
Rise from the Sands of Budapest.
I search for you in piss porcelain urinals of shopping malls.
Are you the security guard who warned me,
who teased with cock and balls,
who tried to strangle me with night stick?
Are you the lesbian who took off the handcuffs
and asked, "What if he had given you a blowjob?"
I look for you Allen, when boys kicked my ass, called me fag
on junior high basketball courts.
I search for you at age 12 when I discovered the wonders
of masturbation in Aunt Tillie's bedroom,
in front of a black and white Zenith.
I needed you in baptist churches as my father's shoes pinched my feet.
I want to tell you about the first time I tasted semen.
His name was George.
I search for you in the eyes of Michael
who I thought could tell my future in that white boy gism.
I search for you on filthy, stink shit mattresses of window tinted vans.
Where were you when Jack kissed me in a game of Truth or Dare,
when Nick stood me up at the movies and never opened my love letters?
I thought you were the naked adonis in that yellow
Corolla at Tom Brown Park.
I search for you Allen on the floor of a bipolar bisexual who shit on my
dick while being screwed in a recreational park.
I searched for you in Ben's windshield,
in the ocean blue of Robert's eyes.
I search for you in governmental crotches of sugar daddies.
I search for you in gay porn magazines,
in the voices of guys who want to lick my butt.
I thought you were Dennis, the Spanish
teacher assistant who licked my ears, rubbed my hands with lotion,
begged me to stay the night.
I search for you beneath shirts of frat boys,
in the bathroom mirror of John's apartment
before he left me for a red head from Boston.
9
Is that you Allen darling in the produce section
in A Supermarket, in California;
Squeezing apples ripe as my nipples?
Wish I was there as you read your poetry
on the sunshine steps of Florida State University
when Reagan wouldn't say the word AIDS in publicwhen
you shot poetic loads in the beards of conservatives.
I search for you in smoke-filled San Francisco coffee houses.
In Jack Keroauc's liquor cabinet.
Have naked lunch on William Burrough's Patio.
You were kicked out of Cuba for finding Che Guevera cute.
I search for you in the tearooms of Columbia University,
in the concert hall as you sang a duet with Bob Dylan.
I search for you through the concrete jungle of America.
I Howl for you. I will read the Kaddish for a hand job.
Are you in my room naked and sweaty?
Did you find my strawberry flavored condoms?
Is your penis stuffed and ready for a black man's mouth?
I search for you in the face of my father, in the womb of my mother.
I search for you in City Lights Bookstore, bus stop lobbies.
Come to me Allen. My door is wide-opened for you tonight.
come and crawl like a spider beneath my covers
and give me head oh hotjew based in New York.
I'm a fairy girl in distress. A black guy white guys don't want.
I want to shake your hand with Cosmopolitan Greetings.
Let's talk over eggs and grits.
Let's write poems and smoke pot.
Leave a message if I'm not home.
Where you at? Your face is plastered on telephone poles,
asking, Have you seen this man?
Where the hell are you cuz I've been worried sick.

Black Vaseline and other poems - Shane Allison



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janeiro 26, 2005


A Cinelândia e seus pombos


Lagos gelados incrustados nos olhos,
O travesti é o estrangeiro de si mesmo.
Que Pátrias imensas o habitarão?
A que Deus gritará a sua geografia?
Ou será o travesti a legião de todas as Pátrias?
Um cogumelo dança na cabeça dos homens;
Sangue escorrendo em pós e fumaça.
Pombos cagam nos menininhos da Praça
: Mataremos os pombos ou os menininhos?
Não consigo terminar nenhum livro;
Não consigo começar nenhum amor.
Aprendi a perguntar com Quintana: "E por que não?"
E a me responder: sempre-talvez-sim-quem sabe...
Há um baú aberto de esperas;
Um mar imenso navegando um navio assombrado.
Sou esse mar e esse navio - assombro fantasmas.
Minhas lentes de contato perderam o contato com o real
- Só o imaginário é visível.
Sonhar é desrespeitar o silêncio.
É espantar a voz do sono.
É dormir ao avesso.
Fantasio o impossível e vivo.
Há poetas demais gritando dores;
Há dores demais sendo cantadas.
Dão milho aos pombos
: As criancinhas se vingam, comendo-os.

(In: Beco com saídas) - TANUSSI CARDOSO



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janeiro 18, 2005


A arte de viver


Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto

é a arte de viver...

como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida

no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade

Armando Artur



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janeiro 16, 2005


el farolero y su novia


—Bien puedes amarme aquí,
que la luna yo encendí,
tú, por ti, sí, tú, por ti.
—Sí, por mí.
—Bien puedes besarme aquí,
faro, farol farolera,
la más álgida que vi.
—Bueno, sí.
—Bien puedes matarme aquí,
gélida novia lunera
del faro farolerí.
—Ten. ¿Te di?

Rafael Alberti- -



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janeiro 12, 2005


Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores


Caminhando e cantando
E sentindo a canção,
Somos todos iguais,
Braços dados ou não.

Nas escolas nas ruas,
Campos construções,
Caminhando e cantando,
E seguindo a canção.

Vem, vamos embora,
Que esperar, não é saber,
Quem sabe, faz a hora,
Não espera acontecer.

Pelos campos, a fome,
Em grandes plantações,
Pelas ruas marchando
Preciosos cordões.

Inda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão.

Nas escolas, nas ruas,
Campos, construções,
Somos todos soldados,
Armados ou não.

Caminhando e cantando
E sentindo a canção,
Somos todos iguais,
Braços dados ou não.

Os amores na mente,
As flores no chão,
A certeza na frente,
A história na mão,

Caminhando e cantando,
E seguindo a canção,
Aprendendo ensinando
Uma nova lição…

Geraldo Vandré



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muerte y juicio


1

(MUERTE)

A un niño, a un solo niño que iba para piedra nocturna,
para ángel indiferente de una escala sin cielo...
Mirad. Conteneos la sangre, los ojos.
A sus pies, él mismo, sin vida.
No aliento de farol moribundo,
ni jadeada amarillez de noche agonizante,
sino dos fósforos fijos de pesadilla eléctrica,
clavados sobre su tierra en polvo, juzgándola.
Él, resplandor sin salida, lividez sin escape, yacente,
juzgándose.


2

(JUICIO)

Tizo electrocutado, infancia mía de ceniza, a mis pies, tizo yacente.
Carbunclo hueco, negro, desprendido de un ángel que iba para piedra nocturna,
para límite entre la muerte y la nada.
Tú: yo: niño.
Bambolea el viento un vientre de gritos anteriores al mundo
a la sorpresa de la luz en los ojos de los reciennacidos,
al descenso de la vía láctea a las gargantas terrestres.
Niño.
Una cuna de llamas de norte a sur,
de frialdad de tiza amortajada en los yelos,
a fiebre de paloma agonizando en el área de una bujía;
una cuna de llamas meciéndote las sonrisas, los llantos.
Niño.
Las primeras palabras abiertas en las penumbras de los sueños sin nadie,
en el silencio rizado de las albercas o en el eco de los jardines,
devoradas por el mar y ocultas hoy en un hoyo sin viento.
Muertas, como el estreno de tus pies en el cansancio frío de una escalera.
Niño.
Las flores, sin piernas para huir de los aires crueles,
de su espoleo continuo al corazón volante de las nieves y los pájaros,
desangradas en un aburrimiento de cartillas y pizarrines.
4 y 4 son 18. Y la X, una K, una H, una J.
Niño.
En un trastorno de ciudades marítimas sin escrúpulos,
de mapas confundidos y desiertos barajados,
atended a unos ojos que preguntan por los afluentes del cielo,
a una memoria extraviada entre nombres y fechas.
Niño.
Perdido entre ecuaciones, triángulos, fórmulas y precipitados azules,
entre el suceso de la sangre, los escombros y las coronas caídas,
cuando los cazadores de oro y el asalto a la banca,
en el rubor tardío de las azoteas
voces de ángeles te anunciaron la botadura y pérdida de tu alma.
Niño.
Y como descendiste al fondo de las mareas,
a las urnas donde el azogue, el plomo y el hierro pretenden ser humanos,
tener honores de vida,
a la deriva de la noche tu traje fue dejándote solo.
Niño.
Desnudo, sin los billetes de inocencia fugados en sus bolsillos,
derribada en tu corazón y sola su primera silla,
no creíste ni en Venus, que nacía en el compás abierto de tus brazos.
ni en la escala de plumas que tiende el sueño de Jacob al de Julio Verne.
Niño.
Para ir al infierno no hace falta cambiar de sitio ni postura.

Rafael Alberti



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janeiro 10, 2005


Se puder sem medo


Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo
Deixa a luz do quarto acesa a porta entreaberta
O lençol amarrotado mesmo que vazio
Deixa a toalha na mesa e a comida pronta
Só na minha voz não mexa eu mesmo silencio
Deixa o coração falar o que eu calei um dia
Deixa a casa sem barulho achando que ainda é cedo
Deixa o nosso amor morrer sem graça e sem poesia
Deixa tudo como está e se puder, sem medo
Deixa tudo que lembrar eu finjo que esqueço
Deixa e quando não voltar eu finjo que não importa
Deixa eu ver se me recordo uma frase de efeito
Pra dizer te vendo ir fechando atrás da porta
Deixa o que não for urgente que eu ainda preciso
Deixa o meu olhar doente pousado na mesa
Deixa ali teu endereço qualquer coisa aviso
Deixa o que fingiu levar mas deixou de surpresa
Deixa eu chorar como nunca fui capaz contigo
Deixa eu enfrentar a insônia como gente grande
Deixa ao menos uma vez eu fingir que consigo
Se o adeus demora a dor no coração se expande
Deixa o disco na vitrola pr'eu pensar que é festa
Deixa a gaveta trancada pr'eu não ver tua ausência
Deixa a minha insanidade é tudo que me resta
Deixa eu por à prova toda minha resistência
Deixa eu confessar meu medo do claro e do escuro
Deixa eu contar que era farsa minha voz tranquila
Deixa pendurada a calça de brim desbotado
Que como esse nosso amor ao menor vento oscila
Deixa eu sonhar que você não tem nenhuma pressa
Deixa um último recado na casa vizinha
Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava

Oswaldo Montenegro



Publicado por Mianiam em 02:34 PM | Comentar (0)

Inesperadamente


já não te espero ver quando abro a porta
mas ainda esbarro com a tua ausência

é tudo o que não foste o que não fomos
que me atravanca os dias

o espelho em que me vejo empalidece
como um retrato antigo

sinto-me longe

é quinta feira
Março
o tempo não levanta

de resto aprendo que a monotonia
é apenas isto
o regressar contínuo
ao vazio das coisas

Luís Amorim de Sousa - (Ultramarino)



Publicado por Mianiam em 02:21 PM | Comentar (0)

janeiro 09, 2005


Ronda


Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...

Na dança dos meses
meus olhos choraram
Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...

Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempono tempo voando...

Dizei-me, dizei-me,´
até quando? até quando?

Alda Lara



Publicado por Mianiam em 02:19 PM | Comentar (0)

janeiro 08, 2005


Vozes


Há dias em que me sinto
arrastado por um não sei quê
nostálgico que me constrange.

A infância:
Ontem, há muito tempo...
o meu fatinho de menino
já roto... tão roto!...
aquele fatinho que me cingiu
o corpo de menino pobre,
tão longe... tão distante...

Hoje recordo os amores antigos
dispersos no esquecimento
dos amores recentes.

Ela:
Era tão doce o seu canto.
tão belos os seus cabelos
que já não têm cor...
o seu andar vagueia perdido
no emaranhado de idéias
que me acometem dispersas;
dispersos os seus carinhos,
os seus beijos esquecidos
nos beijos de outras bocas
que não a dela.
-
(Cantiga de mama Zefa) - Ruy Burity da Silva
-



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